209 anos de Caetité – Bahia

O Psiquiatra de Caetité, no microcosmo Caetiteense.
Caetité, sábia e ilustre. Sábia por não aceitar ser propriedade particular de Seu Ninguém, e ilustre por ser sábia no acolhimento afetuoso.

–O próximo, Alice!
–Bom dia, Doutor?
–Bom dia! De Caetité?
–Nasci e cresci aqui, Doutor!
–O que o trouxe?
–O sofrimento, Doutor! Insegurança! Incertezas que me devoram, e por sentir-me desditoso. 
– Fez bem em procurar um profissional da terra. Vi gente nascer, crescer e morrer. Pessoas que foram felizes e infelizes conforme as diretrizes tomadas na vida. Por ter acompanhado de tão perto o início, meio e fim do comportamento humano, fiz da cidade meu laboratório de pesquisa psiquiátrica, e acredito que posso ajudá-lo.
–Em mim, o pessimismo suplantou o otimismo, e padeço por não acreditar numa saída.
– Normal. Despois dos quarenta a vida torna-se enfadonha pelo condicionamento do cérebro, pela estreiteza das religiões, pela nossa especialização técnica e pelo ambiente em que vivemos. Para arrastar este pesado fardo, torna-se um processo muito doloso àqueles que não cuidaram bem da alma.
– Cinquentei agora, Doutor. Tenho boa formação acadêmica, conclui o curso superior, tenho doutorado, e comando uma grande equipe no meu trabalho. Sinto-me preparado para a vida e para o mundo. 
– É natural esmerar-se na formação técnica e não se dedicar ao autoconhecimento.
– Sou leitor assíduo. Procuro manter-me conectado com o mundo, portanto, acho que...
– Mas tudo isso não alimenta a alma.
– Cada dia busco ser uma pessoa melhor, agora, sinto-me cansado. Não encontro força para me libertar dessa agonia.
– O homem é a medida de si mesmo. A parafernália de valores sociais adotados como certos, sem antes fazer uma reflexão profunda, acabou lhe adoecendo.
– Sou religioso, patriota, tenho meu time de futebol do coração, participo de todos eventos sociais, assisto novela, que mais poderia fazer?
–Eclodir-se desse diminuto mundo que você se enclausurou e mergulhar na vida, fazer novos contatos, conhecer outras pessoas.
– Sou sociável, Doutor! Vou às missas todo o fim de semana. Não perco uma festa, churrasco, pagode, nem roda de samba.
–Religião, excesso de festa, tudo isto é um meio de fuga da realidade. Para aliviar sua dor, vai ter que encarar a realidade de frente, de peito aberto. Você não consegue fugir da verdade, ela está aí dentro de você, latejando feito dente dorido. 
– Sempre me sacrifiquei procurando fazer o melhor, no momento não me sinto preparado para as verdade. Onde errei?
–Preocupou demais com o seu bem-estar, com seu dinheiro, com seu emprego e outras futilidades e esqueceu de cuidar da saúde espiritual. 
–Procurei fazer o melhor.
– Errar é humano, corrigir-se é divino.
– Procurei fazer o melhor, mas sinto um vazio enorme dentro de mim.
–A sua dor é por não ter encontrado a coisa pelo qual vale e a pena dedicar-se de corpo e alma durante a vida toda.

–A coisa pelo qual eu me dedico é o que todos se dedicam.

PARTE  II
– Tenha calma, vamos juntos fazer uma viagem num carro de bois, uma viagem longa que começa há meio século. Vamos contemplar a cidade sob o gemido agudo dos cocões de aroeira do carro de bois e reviver as experiências, dores, alegrias da época. Durante esse longo intervalo de tempo e distância analisaremos suas experiências e seu relacionamento com a cidade no nível consciente, e nas camadas mais profundas do seu inconsciente para que eu possa entender e curá-lo.
–Espero que não seja enfadonho.
–Não vale dormir ou simplesmente concordar ou discordar. Temos que examinar todo o processo de pensamento que modelou nossa vida. 
–Estou pronto!
–A viagem já começou. Nesse momento estamos passando diante do Círculo Operário. O que está registrado no seu cérebro?
–Medo de ir à festa nesse clube, ser taxado de pobre e correr o risco de não ser mais convidado para festa de casamento, batizado e de 15 anos das famílias abastadas da cidade.
– Quantas vezes foi à festa no Círculo Operário?
–Nenhuma vez! Como haveria de ir! Nessa época eu era a própria elite. Minha festa era no Baraúna.
–Olha o som do Lordão, estamos passando diante do Baraúna e a festa está animada.
–Se olhar com atenção vai me enxergar lá dento cercado de mulheres bonitas.
–Vejo um grupinho ali, outro acolá.
–Era assim mesmo. Várias turmas. A minha turma era a nata da sociedade. 
–Os falsos burgueses?
–Não importa, sentia-me um verdadeiro burguês.
–São várias patotas ocupando o salão. Por que não se unem?
–Grupo de amigos, melhor dizendo. Cada um no seu quadrado.
–Podemos chamar de festa essas bolhas de tirados a porreta orbitando na gravidade do exibicionismo e da ostentação no tempo e espaço baraunesse?
–Com certeza! Eta! Mas era bom! Os pobretões morriam de inveja de nós. Todos pensavam que éramos ricos! Nossa bolha era a mais bonita, coesa, não se misturava com nenhuma outra e não dava ousadia para ninguém.
–Vamos voltar ao Círculo Operário que eu quero lhe mostrar algo.
–De novo?
–Sim! Só para ver alguns detalhes.
–Não vejo nada de especial.
–Olhe atentamente e enxergará a verdadeira festa. Uma lição de vida. A humildade e simplicidade de mãos dadas bailando no salão. Não há grupo individualista, nem distinção de pessoa, de classe de nada, e a interação é ampla geral e irrestrita. Todos se jogam de corpo e alma pra vida e eternizam-se na felicidade vivida em cada segundo. 
– Nós éramos felizes também, principalmente, quando estreávamos roupas de etiquetas, Doutor.
– E encharcava o comércio de inadimplência.
–Por uma causa nobre. 
– Correndo risco!
– De quê?
– Do invólucro valer mais que o cereal.
– Chiquérrimos como éramos, não havia risco!

PARTE III
–Estamos na rua nova, e o couro come na casa de Lindu. Giripoca dando um show a parte no pandeiro e no bongô e as meninas dançando. Já se divertiu com as meninas de Lindu?
–Deus é mais, eu só pego mulher bonita da alta sociedade, Doutor.
–Com essas você não precisa ensinar, só aprender e deixar o prazer da vida fluir vagarosamente. O Zé Pina está cantando o bingo e descartando o Pif-Paf. Veja o clássico da sinuca, Jujú da DNR com Lidinalvo no sinucão de Camerindo. A peruada pitacando: Tõe Bicudo, Zé Pidão, Seu Dim, Silvano, Dr. Sebastião Costa, Tiãozão Preto. Já comeu buchada, mocotó e feijoada em Tiãozão Preto?
–Não frequentava esses ambientes, Doutor. Tinha nome a preservar. 
–Eram as opções de entretenimento que a cidade oferecia. Frequentando ambiente como esse aprende muito com as pessoas. Nós aprendemos um com os outros. 
–Eu tinha outras opções.
–Estamos agora na feira velha, O Circo de Mexicanito está lotado, todos vieram ver Topa Tudo, bêbado, segurar o touro a unha. Alguma vez entrou no circo por debaixo da lona?
–Não! Nenhuma vez. Fazia questão de pagar para mostrar que eu não era moleque igual aos outros.
–Olha o Teatro Centenário” de pé. Veja como o bicho é suntuoso, está um movimento danado lá dentro. Vamos espiar? Ah! É o show “O Homem Vulcão”, dirigido e protagonizado pelo artista Mané Beiçola? Você assistiu ao espetáculo?
–Não, mas ouvi comentários na época. Todos gostaram. 
–Uma perversidade o desmoronamento do “Centenário”. Foi um golpe traiçoeiro na cultura e na arte do povo da cidade.
–Para mim, já derrubaram tarde. Esse teatro estava caindo aos pedaços, mesmo. Todo este tempo que morei na cidade as peças de teatro apresentadas podiam contar nos dedos. A última que assisti foi encenada por Tales Ledo, no Seminário Novo, e algumas apresentações culturais no colégio das freiras. 
–Concordo. O Seminário, o Colégio das Freiras, a Escola Normal, o IEAT junto com movimento estudantil eram as fontes fomentadores da cultura da cidade, foram-se essas fontes e a pobreza cultural é visível nas campanhas eleitorais e nas comemorações de datas importantes e no comportamento dos jovens. 
–Os caetiteenses choram o “Centenário” desmoronado. Opção na cidade para colocar em pratica idéias artísticas não faltam: Seminário Novo, Auditório do IEAT, praça da Matriz. No Museu Anísio Teixeira tem um teatro, não sei se deixa pobre entrar, mas é uma opção.
–É fácil abrir a boca e dizer: Terra da Cultura e nas datas comemorativas contratar os Batukerês da Vida. É preciso empenho da sociedade, do estado para que o povo possa retratar seus anseios, seus valores e transmitir esses conhecimentos, à criação intelectual e artística para que a cultura do lugar seja nutrida diariamente. 
–Deixemos essa coisa de cultura, por ora. Vamos prosseguir.

PARTE IV
–Prossigamos. Veja Seu Leobino e Seu Fraga em fotos, registrando os fatos da cidade. João de Deus e Tingu rasgando o fole no clássico Asa Branca. Da sacada da casa a Maestrina, Prof. Cecê, nina a alma dos transeuntes da Avenida Sant’ana com melodia divina e cósmica que emana dos acordes perfeitos em seu bandolim.
–Quanta perfeição, tive a felicidade de ouvi-la tocar essa única vez.
–Vamos subir até os frondosos jatobazeiros onde o riacho, as folhas, e as aves silenciam-se para ouvir o som da Flauta Transversal do Maestro Álvaro.
–Seu Álvaro, outro génio da música!
– Olha lá Batuque escorraçando a molecada.
–Quantas vezes foi escorraçado por Batuque?
–Nenhuma!
–Conheceu o santuário fictício localizado na parede da cabeceira da cama da Sexóloga Ana Rebolo, que, com a ponta do dedo ilustrava a figura de São Jorge no seu cavalo ao tempo que tartamudeava palavras ininteligíveis?
–Nem pensar uma coisa dessa, eu tinha todos brotos da cidade aos meus pés.
–Parece que você não participou muito dos acontecimentos. Por onde andava enquanto a cidade acontecia?
–No Baraúna Tênis Clube, e na casa de amigos.
–Parece que você viveu em outra dimensão, a vida passou e você não viu.
–Nem pensar uma coisa dessa; vi, senti e curtir bastante.
–Nenhum acontecimento lhe causou admiração, o seu isolamento lhe privou de absorver o melhor da cidade, não conheceu ninguém interessante, limitou-se a viver dentro dessa bolha fria e viciada que se chama socialite.
–Nessa bolha eu era feliz e tinha consciência dessa felicidade, somente agora que o bicho está pegando..
–Tenha calma que pra tudo na vida tem remédio. Olha o Senador Ovídio Teixeira, Odulfo Domingues, Dr. Woquiton, Dr. Clarismundo, Dom José Pedro Costa. Sabe quem foram eles?
–Claro que sei, homens nobres da cidade. Nosso orgulho era tê-los na nossa turma.
–E aquela galera que vai subindo o morro do piolho.
–Que Galera?
–Dim, Maroto, Iva, Osmar, Pilot, Lô, Quito? 
–Nossa... Nunca ouvir falar dessa gente! Quem foram eles.
–Os famosos Propôs. Pessoa da mesma relevância humana dos homens nobres, perante os olhos de Deus. 
–O que eles fizeram de especial
–Exerceram um papel importantíssimo na nossa cidade. Foram usado por Deus para dar feedback do comportamento e do relacionamento de todos nós, dentro da nossa cidade, durante todo esse tempo.
–Vixe Maria! Isso Tudo!
–Claro, se você estivesse atentado para os feedbacks da vida não estaria passando por esse momento difícil.
–A vida sem graceza que levo? Seria castigo por não entender a mensagem divina?
–Deus não castiga ninguém. Acontece que nenhum de nós deu importância as mensagens, o tempo passou e nosso individualismo cresceu e o nosso egocentrismo acabou endurecendo nossos corações.
–Se eu fosse mais humilde teria entendido a divina mensagem através dos Propôs, e estaria curado.
–Coma toda certeza. A filantropia, a caridade e a bondade é a cura de todos os males. A bondade mantém as pessoas unidas, e os frutos da brandura são milagrosos.
–Somente depois de velho passei a entender o quanto é bom ser bom.
–O interesse pessoal é porta que impede a entrada da felicidade. Você gastou tempo precioso para vender a idéia de bacana.
–Apesar de não transparecer, sou dotado de sentimentos, Doutor!
–Todos nós temos sentimentos nobres, despertá-los é o desafio. 
PARTE V

--Vamos dar uma passadinha no bar de Onofre. Cheio como sempre. Já tomou uma pingazinha nesse bar ?
–Eu sou lá homem de beber pinga? Inda mais em boteco? Peraê, Doutor! Só tomo uísque importado.
–Tomar uma pingazinha e conversar com esse pessoal que espera o transporte para ir a feira do junco não tira pedaço em ninguém. São pessoas diferentes, de vida simples, de ambição diferente da sua. Teria lhe ajudado. É preciso conhecer as pessoas para melhor compreender a si mesmo.
– Eu sou eu, os outros são os outros. Não me comparo com ninguém. 
– A feira livre, já almoçou no mercado? 
– Vixe! Só saio de casa para almoçar em restaurante chic e elegante!
–Você é duro na queda, hem rapaz? Deixou escapulir outra oportunidade de conhecer e aprender com o seu semelhante, agora vive feito zumbi entupido de psicotrópico para aliviar os tormentos. Paremos aqui, os bois estão cansados, não aguentam subir os milhões.
–Paremos.
–Voltemos ao consultório.
–Voltemos.
–Preciso conhecer melhor o seu perfil. Permite-me espiar sua página no Facebook?
–Fique a vontade, Doutor.
–Opa! Quantas fotografias interessantes, hem? Coisa boa aqui. Andou viajando, isto é muito bom. Melhora a autoestima, conhece novas pessoas, faz novas amizades, tira conclusões próprias do mundo. Adquire nova experiência. Sai da rotina. Uma série de coisas boas, que mais o motivou a conhecer o velho mundo?
–Fotografias. Fui passear na Europa somente para tirar essas fotos e postar no Facebook.
–Somente para isto?
–Sim! E o Senhor acha pouca? Há muito eu queria realizar esse sonho. Uma coisa muito bacana , não acha?
–Com qual propósito?
–Tirar uma onda com a galera, Doutor.
–Onda? Como assim? Você joga fora as oportunidades da vida e agora fala em tirar onda.
–É meu barato, Doutor. Tirar onda.
–Não entendi direito.
–O Senhor não entende? O sonho de todo mundo é conhecer outro país, de preferencia de outro continente, e foi o que fiz, daí eu coloquei essas fotos para tirar um sarro com a galera que tem vontade de viajar e não tem a grana que tenho. Sacou? Aí fico azarando a galera e mostrando que até check-in de vôo internacional já sei fazer. É um barato ou não é, Doutro?
–É muita vaidade para não exibicionismo.
–Os dois
.
PARTE VI
–Deixe-me ver mais. Sua língua é afiada. Desdenha e debocha como ninguém.
–É o que me apraz. Tentei me corrigir e não consegui. Às vezes, sem querer, me flagro ironizando as pessoas.
–E acaba ironizando a si e a própria vida. Deixe-me ver mais. Aqui: Alguém contrário a palmatória na escola e você debocha e ofende a pessoa ao invés de expor suas idéias e debater o tema. 
–Comigo é assim, Doutor! Quando não gosto ou não entendo, desdenho e debocho.
–Vejamos essa outra. Festa de confraternização... Pessoa pergunta onde vai ser a festa e não o local da reunião, você não entende e dá patadas.
–Onde já se viu praia de Ipanema em São Paulo? O cabra é burro!
–A reunião pode ser até no Japão, ou nos Quincas do inferno, mas a festa é num lugar específico e foi sobre esse lugar específico, e não o local da reunião que a pessoa indagou, e você não entendeu e foi curto e grosso.
–Esculachei, mesmo! É o meu jeito de ser, Doutor.
–Em nenhum momento essa pessoa lhe ofendeu e lhe faltou o respeito, simplesmente indagou e você foi casca grossa. 
–Sou assim. 
–Deboche e desdém é coisa de gentinha, você deve saber disso. Veja, há mais fotos aqui. Que fotos são essas.
–Da confraternização.
–Coisa recente?
–Sim!
–Só tem Baraunesses na festa. Não compareceu nenhum Círculo Operariense? 
–O convite foi estendido a todos. Por que o Senhor não foi, Doutor?
–Estou com bursite, não consigo segurar copo de uísque por muito tempo e o e-mail que me enviaram foi muito desaforado.
–É o nosso jeito de ser, Doutor. Não temos papas na língua.
–Viver dando patada nos outros afeia o relacionamento e a própria vida.
–Infelizmente não sabemos viver de outro jeito, mas a confraternização foi uma delícia.
–Tô vendo aqui, um pingado de Baraunesse e pronto! Ué, aconteceu a coalizão das bolhas orbitacionais Baraunesses. A turma do copo de uísque na mão é a de sempre, faltou a jovem de casta inferior, ao lado, para sustentar a idéia de comilão, mesmo que não coma. 
–Hoje não dá mais para ostentar essas coisas. Muita despesa, o guindaste perdeu a força...
–É chik passar a noite inteira com um copo na mão?
–Era chik quando a gente podia beber uísque, hoje o figueiredo tá baquiado, não aguenta o repuxo, no copo somente guaraná com gelo para disfarçar.
–O estrago primaveril nas pessoas é visível, nem mesmo a recauchutagem disfarça, mas a crista jactanciosa mantém-se intocável.
–É a vida, Doutor. Temos que manter a aparência.
–Os membros das bolhas não sabem mais colocar os pés no chão, até parece que, se descer do pedestal cai e despedaça feito vidro.
–Mesmo assim, vale a pena, Doutor.
–E as pompas? Faltou pompas! Tirando as empetelecagens e as indumentárias de etiquetas o aspecto físico do lugar lembra a singeleza do Círculo Operário.
–Nem imita o Círculo Operário. 
–Parece festa no Círculo Operário para convidados Barauneses. Resolveram calçar a sandália da humildade nesse restim de vida ou foi falta de grana, mesmo?
– Só sei que estava bom a beça, Doutor.
–E essas pessoas que estão lhe abraçando e beijando, garanto que não foram as que receberam o e-mail atrevido que recebi, foi? 
–São meus amigos, todos os presentes me amam.
–A amizade não floresce onde existe inveja, confronto e possessividade. Chega de Facebook. 

PARTE VII
Prossigamos?
–Prossigamos!
–Você é religioso?
–Fervoroso, graças a Deus?
–O homem criou Deus pelo seu pensamento ou Deus criou o homem?
–Deus criou o homem, Doutor.
–Então Deus criou esta sociedade feia, brutal e cruel?
–Não, Deus criou o homem .
–Por sua vez, o homem criou a sociedade. Deve ter sido um Deus muito medíocre esse que criou os seres humanos que vivem lutando uns com os outros, perpetuamente. 
–Deus é bom, o homem é que é medíocre.
–Já foi ateu alguma vez?
–De jeito nenhuma! Nunca! 
–Passou a vida toda aceitando esse lengalenga sem nunca refletir? Nunca questionou Jesus? O Deus bíblico?
–Nem pensar uma coisa dessas. Deus me livre e guarde! 
– Já leu o evangelho?
–Decorei, até! Jesus morreu para nos salvar, houve muito sangue e no terceiro dia ele ressuscitou, e a morte foi vencida...
–Um decorebazinho danado. Nunca descobriu imperfeição no Deus Bíblico?
–Vire essa boca pra lá, Doutor. Se continuar assim vou embora! Temo a Deus o soberano, só ele é digno de toda minha honra.
–Deixa queto! A sua superficialidade lhe adoeceu profundamente, começar da estaca zero a esta altura da vida torna o processo doloroso, mas, pra tudo na vida tem solução. 
–Graças a Deus! Foi por isso que vim aqui, para aliviar meu sofrimento, Doutor.
–E vai se sentir aliviado se seguir minhas recomendações. 
–Quais?
–Recomendo uma viagem de 15 dias no distrito de Caldeiras para você aprender a perseverar quando ver os camponeses semeando aquela terra árida. O povo da região vai lhe ensinar a levar uma vida simples com prazeres singelos, e vai acabar descobrindo que muitas das coisas que você considera imprescindíveis à vida, na realidade, são supérfluas. 
– Isto para mim é castigo, estou acostumado a viajar para países do primeiro mundo e o Senhor me manda para um distritozinho de Caetité?
–Tem que fazer sacrifício se quiser curar seus males. Vou pedir que almoce todos os sábados no mercado da feira livre durante um ano. 
–Eca!
–Vou lhe receitar, também, alguns remédios. Dois de tarja preta: Friedrich Nietzsche e Jiddu Krishnamurti. Nith deve ser usado nas igrejas, templos, missa e culto. Krishnamurt, quando estiver sozinho consigo mesmo. Vou receitar, também, dois de tarja marrom: Sócrates e Platão para serem usados quando estiver em praça pública, feira livre, micareta. Dois de tarja cinza: William Shakespeare para ser usado quando estiver em ambiente social ou na roda de amigos, e Lao-Tsé quando estiver em contato com a natureza, Deus ou o nome que queira dar. Caso haja efeito colateral muito forte e queira cortar os efeitos, voltando a ser o que era antes, recomendo São Francisco de Assis, é um ótimo remédio de tarja transparente.
–Eu agradeço de coração, Doutor!
–Se você seguir minhas recomendações, será curado num curto espaço de tempo. Agora pode ir, depois que tomar os remédios e retornar de Caldeiras vai sentir-se melhor.
–Até lá, Doutor!
–Até! O próximo! Quem é o próximo, Alice?
–O próximo é José William!
–Oxente! Não foi o que encaminhei para o sanatório na semana passada?
–Foi, mas não aceitaram. Disseram que a loucura dele é de extrema gravidade, e que o hospício não tem estrutura para cuidá-lo.
–Ele está aí?
–Está!
–Com camisa de força e bem acorrentado?
–Sim, Senhor?
–E os seguranças?
–A postos!
–Então, mande-o entra!
Por: Zé William
(Qualquer semelhança, é mera coincidência.)

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Brasileiro da Bahia que gosta de escrever. Escritor/Jornalista que gosta de abordar o cotidiano do seu ângulo de visão.

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