A Morte não é em Vão

De todas as verdades, a morte é a única que ninguém consegue se esquivar.

Por mais capciosa, tendenciosa e corrupta que seja a mente, um dia ela vai bater de frente com a verdade. Não adianta correr, fugir, se estrebuchar, ela vai estar lá: viva, acesa, avassaladora e chega destruindo conceitos, ideias, fé, crença, convicções e todo tipo de pensamento. Nesse dia não cabe comiseração, consideração, protelação, porque a morte não barganha com ninguém.

Por mais culta que que seja a mente, esta não conseguirá impedir que a verdade chegue, adentre e se instale, porque, a morte, como todas as verdades, é arrebatadora e entra sem pedir licença. Por mais suspicaz, astuto e ardiloso que seja o pensamento, não conseguirá adornar os fatos, não poderá se esquivar da realidade.

Todas as instituições, todas as igrejas, todas as palavras, por mais sacralizadas que sejam, não conseguem mudar os fatos. O homem enredado em palavras nunca descobrirá a verdade, a morte, Deus, ou o nome que queira dar. Vivemos da superficialidade dos entretenimentos; da inocuidade das ideias; das armadilhas do pensamento e, quando a verdade chega, percebemos que toda nossa vida fora uma farsa.

Por mais disciplinada que seja a mente, através de anos de doutrinação ficará confusa quando se deparar com o real, com a verdade da morte: quando esta chega para si ou para outrem. Porque a verdade emana vigor que suplanta as ideias frias e inócuas do pensamento, que tentam dissimular os fatos. Existe aquilo que pensamos que é, e existe aquilo que realmente é. Esse esforço para mudar o que é para o que gostaríamos que fosse, nos causa angústia, sofrimento e dor.

Até mesmo a mente disciplinada pelos ritos religiosos há milhares de anos, essa mesma mente, não terá sabedoria para lidar com a enxurrada avassaladora de sentimentos novos que invadem o coração e a alma quando se recebe a notícia de falecimento de alguém da família. Por mais culta e erudita que seja essa mente, ela não saberá lidar com esses sentimentos, porque não estamos acostumados com sentimentos verdadeiros.

O aferrar-se aos pensamentos, aos livros sagrados, as ideologias acabam embotando a mente que, sem frescor e sem energia, passa a negar o que é real. A morte de um ente querido é uma verdade nua e crua que acontece fora da mente, mas as reações e os sentimentos fortes que emanam dessa realidade destroem e varrem todos os conceitos, ideias, crenças e jogam por chão as ilusões nutridas pelos pensamento ao longo de toda uma vida.

Deus e o homem; o homem e Deus! As ações do homem incidem nas instituições da sociedade; as ações de Deus agem na inteligência que rege o Planeta Terra. Portanto, existem dois mundos: o mundo das palavras, das ideias, dos conceitos e o mundo de Deus, das verdades, das realidades. Quando a mente se envereda pelas elucubrações do pensamento, ao se deparar com as ações de Deus se dissolve feito um castelo de areia. Pois, mente alguma está preparada para viver a realidade da morte, quando esta bate na porta. Na própria porta ou na porta de um parente.

Deus é generoso, Ele não faz mais porque o sistema planetário tem seus limites. O nosso sistema planetário não foi programado para desenvolver vida eterna, vida sem morte. Portanto, não existe Deus bom, não existe Deus mau, existe Deus justo, e na sua santa misericórdia, às vezes, é duro demais. Para valorizar a vida, e não deixar que a morte seja em vão, se faz necessário esse impacto arrebatador, que puxa até os incautos para uma reflexão mais profunda sobre a própria existência, além, claro, de assegurar a continuidade das espécies ao manter o ciclo de vida: ao nascer e ao morrer, abre-se e fecha esse ciclo. Portanto, é inconcebível a hipótese de vida sem morte dentro da sabedoria do sistema que rege o nosso planeta.

Assim como não existe morte em vão, não existe culpa na partida de alguém que se foi de forma natural. Porque, ninguém tem a fórmula do elixir da longevidade, nem o segredo da vida plena, mas cada indivíduo tem o livre-arbítrio de viver a vida na sua plenitude, da maneira que lhe apraz.
(Eu)

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Brasileiro da Bahia que gosta de escrever. Escritor/Jornalista que gosta de abordar o cotidiano do seu ângulo de visão.

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