Mocorongo na Grã-Finagem pena

Fui num restaurante chiquérrimo, que de chiquismo só tinha o preço e a porção servida, onde tudo custava os zóios da cara. Para disfarçar minha mocoronguice, fingi-me acostumado com o preço extorsivo do lugar e ousei: tomei-me de coragem, estufei o peito e, à parmegiana, mandei descer um peixe. O nome poderia até ser outro, mas a cara do aquático pareceu assim ser.

Jubiloso fiquei quando anunciaram que o empanado vinha vindo e, de pronto, mandei ajuntar duas mesas para receber o dito cujo. Pelo preço, imaginei umas quatro caçarolas da merenda escolar entupidas deles, que nem no bar de Tiazão Preto. Qual o quê, quando o cabra chegou com o almoço, estupefato fiquei de tão pequena que era a porção. Toda a fartura que imaginei que fosse coube num pratozinho de sobremesa: duas rodelinhas de peixe frito e mais nada. Nenhum acompanhante, nem mesmo uma porção do gurutuba de Guanambi, ao menos aquele punhado de arroz espremido na xícara com uma folhinha verde em cima veio, sequer a folhinha verde. Era bico seco, mesmo. Nunca vi tamanha judiação. Era malandragem pura, para um caipira desconfiado que nem que eu.

Sei que olhei pro prato, pra fome, e falei pra mim mesmo: lascou! Como sempre, sem perder a classe e manter a impressão de que estava acostumadíssimo a ser extorquido com naturalidade em restaurante chique, pedi outro troço para arrefecer a inquietação das esfomeadíssimas lombrigas que não me davam sossego. Mandei descer um tal de paelha de camarão salteado no azeite; não tinha a menor ideia do que se tratava e um escondidinho para tapar o buraco no bucho. Mesmo assim, de tão tiquinho que eram as poções, ao invés de forrar o bucho, só atiçavam ainda mais as alvoroçadas lombrigas.

Corri o dedo no catálogo de comida procurando por um miojo, mas, em vão. Pra beber busquei por tubaína de litro, ki-suco de groselha e nada, só tinha de Milk-shake pra riba; desisti.

Cansado de ser trouxa, de pagar fortuna por um taquinho de peixe num pires, resolvi pedir as contas… e pedi… e a bicha veio… e quase caí de costas… É que eu estava em grupo e pelo valor da conta parecia que, ao invés de almoço, todo mundo havia comprado um eletrodoméstico. Não me importava se o preço custasse um televisor plasma de 100”, desde que fosse comida farta para forrar a pança.

Sei que o negócio foi assustador. Mesmo assim, abismado com tudo aquilo, mantive a classe, para deixar transparecer que eu já estava acostumado em fazer papel de trouxa, que eu tinha hábitos grã-finos. Sei que cada um pagou a parte que lhe cabia no latifúndio, fingindo-se feliz e saciado. Eu até palitei os dentes e forcei um arroto para também fingir feliz e saciado, que tudo era normal.

Depois das despedidas, acredito eu, cada um foi pra cozinha preparar o almoço. Com minha moral abalada com a mulher, sequer ousei tocar no assunto de cozinha, preferi passar na padaria, comprar três pães. Em casa, fritei três ovos, servi-me uma purazinha para dar o ar de almoço e, para cada mordida no sanduba uma talagada de pinga até engolir os três ferozes. Saciados, eu e minhas lombrigas, dormimos o sono dos justos e inocentes, com uma lição aprendida: mocorongo na grã-finagem pena.

(Autoria: eu)

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Brasileiro da Bahia que gosta de escrever. Escritor/Jornalista que gosta de abordar o cotidiano do seu ângulo de visão.

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