Não é do meu tempo

10424243_717445634992275_1617809108637518178_nAcabo de vir do Supermecado. Não havia cliente e os funcionários estavam numa prosa fervorosa. Os jovens tiravam sarro de uma funci de uns 50 anos que afirmava ter existido, na época dela, carro Aero Willys.

Os jovens caíram na gaitada diante de tal disparate. A rizada aumentou quando a funci perguntou a um cliente e esse disse que nunca ouvira falar. A zoação foi maior diante do azar da funci ao perguntar a um revendedor de carro, esse negou a existência desse tal Aero Willy, afirmando nunca ter existido. O fim da picada para essa senhora.

Foi quando eu comecei a passar minhas compras, a mulher com os olhos arregalados olhou para mim e depositou sua última esperança no meu bigode branco. Para ela, era impossível um cabra com o bigode branco como o meu, nunca ter visto ou sequer ouvido falar do tal Aero Willys, que, àquela altura, nem mesmo ela tinha certeza da existência desse carro. Ela olhou nos meus olhos e sem cerimônia foi direto ao assunto: Meu Senhor, já ouviu falar do carro Aero Willys? Eu respondi de bom grado: claro, muito bonito por sinal! Bonito e luxuoso, na época, era carro de rico.

A mulher sentiu-se aliviada, foi como se eu tivesse tirado um fardo das costas daquela senhora, se eu tivesse negado a existência desse carro ela seria taxada de mentirosa no meio dos colegas, assim que eu confirmei a existência do veículo ela logo revidou os autores do bulling: Viu? Eu não falei que existia? Fiquem rindo agora, fiquem! Depois eu concluí: não somente Aero Willys como Simca Chambord, Cadillac, Cadillac Rabo de Peixe…

Todos ficaram assustados, eu também, porque pareceu que eu era a única pessoa a saber da existência do tal carro. Inda veio na minha cabeça Galaxie, Itamaty e outros, mas não citei, era muita informação num só dia para aqueles jovens. Quando falei no Simca Chambord foi um estrondo de gargalhadas… Quê? Dizia um. Como? Dizia outro. Cham… o quê? Ah! Ah! Ah! E repetiam constantemente: não é do meu tempo não. Outro dizia, não é da minha época. Chamando-me de velho, indiretamente. Fingi não entender.

O que vi mesmo, foi um show de desinformação. Nunca vi tanta ignorância junta. Ficou claro o desinteresse dos jovens pela a evolução da tecnologia, pelo progresso da humanidade. Antes da pólvora, a guerra era decidida no aço da lâmina da espada. Sou velho, mas não sou dessa época, e muito menos da época em que os navegadores genovês, Cristóvão Colombo e o português Pedro Álvares Cabral, atravessaram o Oceano Atlântico em frágeis embarcações e descobriram a América.

Hoje, seria impossível imaginar essa travessia com tais embarcações, mas tudo isso é história, é pra isso que serve a história, para que a humanidade não perca sua identidade. Portanto, não justifica dizer que não é do meu tempo, da minha época. É mais honesto dizer, eu não li a respeito. Eu não sei! Essa coragem de dizer eu não sei, no meu entender, é o primeiro passo à sabedoria. É isso!
(Por: Zé William)

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Brasileiro da Bahia que gosta de escrever. Escritor/Jornalista que gosta de abordar o cotidiano do seu ângulo de visão.

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