Lá se faz, aqui se paga

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-Não acredito! Você!  Piedade! Tenha piedade, Senhor.  Espere, espere um pouco mais! Pelo amor de Deus, vá embora! Deixe-me  viver mais uns dias…
-Acabou!
-Como assim, acabou?
-Não percebe?
-Ué? Quede? Cadê?
-Cadê o quê?
-Minhas coisas?
-Zefini! Já era!
-Assim de repente! Sem aviso prévio! Sem nenhum recado,  carta, telegrama?…
-Pra quê? Para você se borrelar todo?
-Que maldade é essa, meu Deus?  Não me deu  tempo para eu fazer meu inventário. E tudo acaba repentinamente, num piscar de olhos,  justamente agora,   que passo a colher as bonanças de minhas tempestades.
-Que história de bonanças é essa, rapaz?
-Dediquei minha vida ao trabalho,  somente agora meu  esforço foi reconhecido, fui promovido ao cargo mais alto da empresa essa semana;  a gostosa da Kátia aceitou sair comigo; o carrão de 400 cavalos  que comprei chega esta semana,  agora que começo a desfrutar da vida você me aparece e leva tudo.
– Eu sempre estive ao seu lado a vida inteira esempre dizia: não se apegue, você não pode carregar nada consigo.
-Eu sempre soube disso, mas era muito doloroso para mim.
-Eu lhe dei todo tempo mundo para você aprender a se desgrudar das futilidades e agora que eu chego você chora feito criança.
-A dor é profunda. Como perder tudo assim tão de repente. É muita dor.
-Esse dia ia chegar!
-Eu era cético demais.
-Notava-se! Inverteu o termo, ao invés de desapegar, apegou-se mais ainda  de  suas  coisas, agora se trucida ao se separar definitivamente dessas porcarias.
-Mas, antes, quero que saiba, foram conquistados com muito suor.
-Você usou meios errados de viver. Fez da vida um jogo;  jogou e perdeu!
-Como assim? O que queria que eu fizesse? Distribuísse de graça o fruto do meu trabalho?
-Você não entende  patavina. Abdicar-se de tudo. Morrer para os bens materiais  enquanto está vivo, sacou? Enquanto estiver vivendo, a cada momento esteja também  morrendo para as coisas,  de modo que, durante a vida toda, não esteja apegado a nada.
-Até parece fácil!
-Não existe divórcio ou separação entre viver e morrer.
-Cruz credo! Vire essa boca pra lá.
-Por mais vivo que a pessoa esteja, a morte  encontra-se ao lado.  Morrer significa viver.
-Graças a Deus! Quer dizer que não estou morto?
-Viu! Não está me acompanhando.
-E o quê que  é  a morte então, sabichão?
-Abandonar o barco, meu caro! Abandonar  totalmente  todas as coisas que construiu, isso é o que significa morrer.
-Só isso?
-Claro! Só isso! A morte passa a vida dizendo no seu pé de ouvido: seja livre , não se apegue, você não pode carregar nada consigo.
-Mas lá, entre os vivos, o papo é outro.
-Que papo?
-A morte não é problema porque tem a tal encarnação, oportunidade  que a pessoa tem para corrigir os erros. O indivíduo  morre e o espírito volta a encarnara até o cabra atingir a perfeição.  .
-Pura teoria, infantil até. Somente os ingênuos ou as mães inconformadas agarram-se a essa idéia.
-Mas, assim, é que deveria ser, seria mais confortável.
-O indivíduo já vive  em conflito consigo mesmo tendo  um espírito só, com dois é um caos total.
-Lá a prosa é outra, que o indivíduo recebe esse espírito no momento que nasce.
-E o que eles fazem  com o espírito original?
-Sei lá! Descarta, joga fora! Boa pergunta.
-Só os tolos acreditam nos mercadores de palavras.
-Na realidade, como é isso de fato?
-A encarnação só acontece com aquele  que a cada instante abandona totalmente, todas as coisas que construiu, assim sendo, cada momento é um novo momento e ao longo do dia  esse indivíduo está morrendo e encarnando, absorvendo a enorme força, a vitalidade e a energia da liberdade total.
-Poético demais para o meu gosto. Lá, a galera não tem a menor idéia do que se trata, vai pensar que é suicídio.
-Que Mané suicídio,  rapaz!  Quando em vida, entendeu? Não estou falando em se matar.
-Essa coisa inda vale para mim?
-Não! Claro que não! Você bateu a caçoleta, agora é tarde. Meta isso na sua cabe!  Você encontra-se morto, literalmente morto! Sacou? Agora não tem mais jeito. Isso deveria ser antes de você esticar a canela.
-Eu não sabia que você sabia gíria.
-Pois é! Você pouco sabe de mim.
-Claro! Acabei de chegar. Afinal, quem você é?
-Eu sou a navalha!
-Navalha!?
-Sim! Separo o homem  de seus pertences, de seus Deuses, de suas superstições, de suas famílias, de seus desejos e de suas superficialidades. Era o que você deveria ter feito em seu tempo hábil, agora expirou.
-Cruz credo! Você é perverso. Se o povo de lá souber disso  você tá lenhado.
-A morte  é desapegar-se de tudo inclusive da psique.
-Misericórdia, complicou demais.
-Psicologicamente falando, claro!
-Embolou mais ainda.
-Já parou para olhar para si mesmo?
-Lógico, e não estou gostando!  No momento não tenho nada,  absolutamente nada.
-Você encontra-se livre de toda essa parafernália, caso  tivesse tentado,   quando em vida,  livrar-se desse apego,  teria alcançado a glória, a vida plena.  Teria entendido o mundo, Deus. Estaria acostumado comigo  e não ficava chiando feito criança.
-Por que você fala assim? Quem no mundo é capaz de pensar numa maluquice dessa?
-Aí é que tá,  você vai na onda dos outros e acaba se arrombando.
-E agora, o que será da minha vida, aliás, da minha morte.
-Vamos devagar.
-Que lugar é esse? É o purgatório?
-Não!
-Não é aqui que vou purificar minha alma antes de ser admitido na bem-aventurança?
-Purificar a alma? Bem-avnturança?  Tá por fora! Você teve a vida toda para fazer isso! Agora  a conversa é outra.
-Não é purgatório? É o que então?
-Os vivos têm o hábito de chamar  nossa  recepção do firmamento de purgatório.
-Nome bonito. Para que serve, mesmo?
-Para analisar o indivíduo  quando em vida. Vou puxar sua ficha para saber  quem você foi.
-Ué? Recepção ou delegacia de polícia?
-É uma repartição onde apuramos a vida do morrido.
-Não vai me dizer que aqui tem computador.
-Claro, e o nosso computador celestial já está fazendo o Download  de sua ficha.
-Pura perda de tempo. Não vai encontrar nada que me desaprove.
-Veremos.
-Não seria melhor me indicar o caminho do céu para não perdermos tempo?
-Calma! Aqui, cada defunto tem o seu merecido lugar.
-Como assim? Não fique me assustando.
-Lembra-se do que Jesus disse?
-Ele disse tantas coisas.
-Ele disse também que a pessoa não deve desejar ao próximo o que não deseja para si mesmo.
-Vixe! Então tô lenhado. Quem no mundo segue Jesus? Ninguém! Inda mais nesse particular que é muito difícil.
-Pois é,  lá se faz, aqui se paga.
-Ué? Morreu passe a régua e começa tudo de novo.   Morreu  lá, acabou! Aqui começa nova etapa, para que  esticar  a vida tanto?
-Não é bem assim. Aqui você vai viver  os sentimento que provocou ao próximo ou…  Olha, o seu Download está concluído.
-Ou o quê?
-Ou a culpa que sentiu ao praticar esses atos…
-Qual dos dois?
-O que for pior.
-Oxente?  De todos os atos?
-Não! Só os praticados conscientemente.
-E os  praticados na  imaturidade, por força do  hábito cultural ou sem a devida intenção.
-Não são registrados  no computador celestial.
-E o perdão de Deus?
-Aqui Deus não perdoa ninguém.
-E quem perdoa?
-A vítima.
-Credo! Quando isso acontece?
-Quando ela aqui chega.
-E se a vítima não perdoar?
-O algoz fica carregando todas as dores e humilhações que a vítima sofrera.
-E se  houver o perdão?
-Ela se livra das dores e humilhações sofridas pelas vítimas e padece da própria culpa.
-Por toda eternidade?
-Não, só até o universo fechar  o  ciclo.
-Universo fechar o  ciclo?
-Sim, o de expansão e contração.
-Quem Deus Pai! Isso  é a eternidade!
-Não! Depois da contração total, esse universo desaparece  e inicia-se um novo clico. Surge uma nova explosão e inicia-se tudo de novo,  da estaca zero, a partir desse momento todos estarão livres do fardo do passado.
-Benza Deus! O pessoal lá da terra precisa saber disso porque o preço é alto demais.
-Sua ficha já está no monitor.  Vejamos o que diz: desejou a mulher do vizinho; sentiu raiva e vontade de vingança num acidente de transito; roubou idéia de colega para se promover na empresa; sonegou o fisco; fingiu dormir no ônibus para não dar lugar a uma idosa…
-Como é que tudo  isso foi parar aí. Espionaram-me?
-Não somos araponga, a consciência dos humanos está conectada ao computador celestial.
-Chic, se não fosse dramático.  Quem  acredita nesse computador?
-Todos nós  acreditamos piamente, o que esse computador tem de bom é  a fidedignidade da informação.
-E se esse computador deturpar as informações?
-Isso não acontece, se viesse acontecer não mudaria  nada, a verdade resplandece quando o morto  ocupar o seu devido lugar no céu.
-Graças a Deus! Está dizendo que não vou para o inferno?
-Claro que não! Aqui só existe céu.
-Ótimo! Isso sim que é notícia boa.
-Céu bom e céu ruim, vai depender  da vida do falecido.
-Lá vem você desmanchando o prazer…  A campainha  tocou, o que vem a ser?
-Chegou  a sua vez, antes, porém, precisamos fazer o reconhecimento dos ambientes para que você fique sabendo  como as coisas por aqui funcionam.
-Tô lenhado!
FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO.
Por: Zé William
Vitória da Conquista, Bahia, 06 de janeiro de 2014.

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